O silêncio do Inferno é algo perturbador. É como se o solo tivesse um tapete que abafa o som dos passos. E os demônios não falam nada, não gritam ao te golpear, nem ao morrer. E você não tem motivos para falar, gritar ou chorar.
Mas as vezes esse silêncio absoluto é quebrado, ao contrário da escuridão e do frio permanentes.
E sempre que ele é quebrado, não é porque algo bom está a caminho.
E eu ouvi a voz gutural atrás de mim.
-Olá de novo, mortal. De volta para ficar dessa vez?
Me virei, encarando os olhos vermelho-sangue do demônio.
-Abandono - eu disse - não esperava encontrar você primeiro. Más como encontrei, deixe-me matá-lo e terminar logo com isso.
-Tente! bradou o demônio.
Enfrentar um grande demônio é algo muito, muito tenso. Eles incorporam os maiores medos de sua alma, e usam contra você.
Mas eu estava imbuído de coragem, e dessa vez, eu tinha muito a perder.
Saquei meus dois revólveres, e descarreguei. Doze tiros na cabeça, cada tiro carregado com a minha gana de destruir ele. Quase foi o suficiente. Quase.
-Boa tentativa - disse ele de cabeça baixa - se seus companheiros não o tivessem abandonado no Inferno, talvez você conseguisse me derrotar apenas com isso.
-Eles não me abandonaram - eu respondi - estou apenas longe dos olhos deles agora.
Ele levantou a cabeça, a tempo de minhas duas espadas encontrarem o pescoço dele.
O silêncio voltou a reinar soberano, a escuridão e o frio intensificando.
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