Todos os grandes demônios haviam sido mortos. A passagem para fora estava livre.
As palavras de Tristeza reverbavam em minha cabeça. Porque eu estava de volta ao Inferno?
O frio se tornava glacial. Meu sobretudo, já rasgado de tantas lutas, não mais oferecia proteção contra ele. Minhas calças jeans, igualmente surradas, estavam incomodas pelo meu sangue que congelara nelas. Pelo menos meus coturnos ainda estavam em bom estado, assim como minhas luvas de couro.
Acendi o último cigarro do maço. Estava em frente a uma porta de madeira, a porta para sair daqui. Abri.
Entrei. E meu coração quase saiu pela boca.
Haviam quatro figuras paradas do lado de dentro da porta. Jaquetas jeans, jaquetas de couro, sobretudos. All Stars, botas e coturnos.
Por isso eu estava com a sensação estranha. Minha essência havia sido dividida.
Eu já não era apenas um.
Trocamos olhares. Todos com o mesmo olhar de predador. Os mesmos cabelos compridos, negros e cacheados. A mesma expressão de descontentamento de estar longe.
Entre nós, surgiu uma outra figura. Era semelhante, mas diferente. Tinha asas negras, e olhos negros.
Ele olhou para nós e falou:
-Finalmente. Thanes, Taurus, Arkayne, Blackwyn e Tito. Finalmente vocês podem sair desse Inferno e voltar para casa. Mas, é o que vocês querem?
-Sim - respondi sem hesitar - é o que queremos. Queremos poder acabar de vez com esse tormento. Voltar para ela.
-Voltar para ela? perguntou a figura alada - Realmente, voltar para ela? Ela é tão importante assim? O sacrifício do Inferno empalidece perante ela? Ela vale cada gota de suor, sangue e lágrima que vocês derramaram?
-Sim - respondemos - ela vale cada gota, ela vale mais do que isso na verdade. Ela vale cada esforço. Cada segundo. Cada batida de nossos corações.
-Então - continuou a figura alada - estejam livres para voltar ao mundo. Apenas, mantenham essa mensagem em mente, e digam para ela também: Nunca mais voltem aqui. O Inferno não quer mais vocês. Eu não quero mais vocês. Sejam felizes com ela, e tenham uma vida longa e próspera. E que ela possa manter vocês afastados daqui. Os demônios que vocês mataram: Tristeza, Agonia, Descrença, Desespero, Fúria, Traição, Covardia, Abandono, eles estão todos esperando por vocês. Esperando que vocês caiam, para eviscerá-los de uma vez por todas. Se voltarem aqui, vocês não vão ter chance de sair.
Eu não aguentei, e fiz a pergunta:
-E você, quem é?
-Eu? Eu sou aquele que vocês deixaram para trás quando saíram daqui pela primeira vez. Eu sou o Diabo em você. Eu sou o Carcereiro que você foi. Agora saiam de meus domínios. E nunca mais voltem.
Nesse momento, tudo ficou escuro.
Acordei.
Estava escuro. Cachorros ladravam, e um carro passava na rua do lado. Era hora de voltar para ela.
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